A ação da Polícia Militar na favela do Pinheirinho (22.01.12), em São José dos Campos, interior de São Paulo, faz parte do mesmo movimento contra a Cracolândia (03.01.2012) e contra a Universidade de São Paulo (08.11.2011).
Pinheirinho
Sobre a ação da PM em Pinheirinho, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil de São José dos Campos, Aristeu César Pinto Neto, declarou:
“O que se viu aqui é a violência do Estado típica do autoritarismo brasileiro, que resolve problemas sociais com a força da polícia. Ou seja, não os resolve. Nós vimos isso o dia inteiro. Há mortes, inclusive de crianças. Nós estamos fazendo um levantamento no Instituto Médico Legal (IML), e tomando as providências para responsabilizar os governantes que fizeram essa barbárie.”
O terreno onde mais de 7 mil pessoas (seres humanos) construíram suas casas (moradia), há mais de 7 anos, pertencia à massa falida de uma empresa do especulador Naji Nahas. Quer dizer: o proprietário do terreno responde por inúmeros crimes financeiros, crimes contra a economia brasileira (ele deve a todos nós, inclusive aos ex-moradores de Pinheirinho), e, ao invés de proferir uma decisão judicial desapropriando a área em favor do direito de moradia, a Justiça Estadual de São Paulo determinou a expulsão, mediante força policial, daquelas famílias.
A PM usou 2 mil policiais, 220 veículos, um carro blindado, dois helicópteros, 40 cães e 100 cavalos, além de tratores para derrubar as casas. Qual foi o custo dessa operação? Esse dinheiro não poderia ter sido revertido em prol das famílias que moravam em Pinheirinho?
A ação durou pouco mais de meia hora. Tempo suficiente para desalojar o que mais de 1.500 famílias construíram em quase uma década. Quantos anos demorará até que todas as pessoas que ali moravam possam se reestruturar novamente?
Cracolândia
Foram anos de descaso. Desde 1990 a região das ruas Vitória e Guaianases, no centro velho da cidade de São Paulo, recebe usuários de drogas em busca de abrigo nos inúmeros casarões em ruínas que caracterizam a arquitetura da região.
Há anos a população “de bem” pedia que fosse instalada uma base policial permanente. As bases policiais nunca estavam disponíveis para a população, mas sempre estiveram para a proteção de hotéis de luxo e de órgãos públicos.
Há anos ONGs atuavam junto aos “craqueiros” tentando reduzir os danos sociais causados pela droga, ganhando a confiança dos usuários e tentando promover ações de saúde e assistência social. O apoio do poder público sempre foi tímido.
A ideia era esta: o poder público deveria permanecer ausente, a fim de que a desagregação urbana pudesse atingir o limite do intolerável. Com isso, a drástica ação higienista do Governo do Estado seria recebida com aplausos pela população “de bem”.
Por um lado, o trabalho das ONGs foi desarticulado, pois a ação da polícia dispersou os usuários de drogas e fez com que se retraísse a confiança que tinham nos agentes sociais. A segurança pública da região não melhorou e alguns milhões serão gastos para tentar consertar o que deveria ter sido evitado.
Por outro lado, a força policial sai fortalecida com a imagem de ser a única capaz de vencer o inimigo. A expressão “tolerância zero” passa a ser cada vez mais admitida e até desejada como meta no combate ao “inimigo”.
Universidade de São Paulo
O desmantelamento da Universidade de São Paulo é uma das principais bandeiras da elite paulista. Há décadas, o descaso da administração da USP com a segurança pública da Cidade Universitária fez com que, no começo de 2011, um estudante fosse assassinado dentro do câmpus. Mais sobre o assunto aqui.
A Polícia Militar entrou no câmpus e era apenas questão de tempo até acontecer algo que legitimasse a sua ação repressiva. O clima se acirrou, o movimento estudantil é desprovido de criatividade e de articulação política e os alunos invadiram o prédio da Reitoria mais uma vez (como era de se esperar).
A elite paulista apenas esperou pelo momento certo para que o adversário (os defensores da universidade pública, gratuita e de qualidade) cometesse um erro estratégico e perdesse uma peça importante do jogo: a opinião pública.
O discurso que se ouviu foi este: os estudantes da USP não estudam, desperdiçam o dinheiro público usando drogas. Estamos a um passo de ouvir o clamor pela privatização da universidade pública.
A ação de desestabilização é clara:
1) Um vestibular que selecione alunos aptos mais a decorar do que a pensar (ou seja: pessoas que repetem o que ouvem sem refletir, porque isso é o que lhes garante a aprovação).
2) Descaso com a urbanização do câmpus a fim de aumentar a insegurança (e preparar o terreno para a invasão policial). Mais sobre isso, aqui.
3) Perda da liberdade de pensamento, já que o conhecimento produzido na universidade seria inútil e criminoso.
Sobre o último ponto, aliás, basta lembrar que um grande jornal chegou a dizer que a universidade é incapaz de propor soluções para os seus próprios problemas (ou seja, a universidade seria inútil) – o que é uma falácia. Além disso, professores da USP nos lembram que “O limite é tênue entre o crime comum e o político; entre a criminalização de condutas e a de ideias”. Traduzindo: hoje te prendem por protestar, amanhã te prendem por ter ideias.
Conclusão
O inimigo são todos aqueles que desafiam o status quo. São todos aqueles que lutam por seus direitos (como no caso dos ex-moradores de Pinheirinho). A elite os considera indignos dos direitos fundamentais inscritos na Constituição Federal e na Declaração Universal dos Direitos Humanos. A elite gostaria que as pessoas que lutam por direitos fundamentais fossem destituídas da sua dignidade.
O inimigo são todos aqueles que foram destituídos da sua dignidade e vagam como zumbis por uma área pós-apocalíptica onde o Estado está ausente (como no caso da Cracolândia). A elite os considera o alvo perfeito das suas ações paliativas, para que sirvam de exemplo a todos os que ousem desafiar o poder constituído. A elite gostaria que essas pessoas fossem expostas em praça pública para lembrar que a senzala é melhor do que a cadeia.
O inimigo são todos aqueles que produzem um conhecimento capaz de revelar a estrutura social responsável por essas injustiças (como no caso da Universidade de São Paulo). A elite os considera perigosos e busca desmoralizá-los em seus veículos de comunicação. A elite gostaria que essas pessoas fossem proibidas de estudar os problemas sociais, econômicos e culturais, a fim de que o status quo permanecesse inalterado.
Os três acontecimentos relatados são apenas parte de um fenômeno maior: a ascensão do nazifascismo brasileiro. Além dos fatos aqui relatados, devem ser lembradas também:
- As manifestações de ódio contra nordestinos, proferidas após a eleição da presidenta Dilma Rousseff, em 2010.
- A insistência machista em se dirigir à presidenta chamando-a de “presidente”.
- As manifestações de ódio contra homossexuais, perpetradas pelos setores mais conservadores da sociedade após a tentativa legítima de combater crimes como os ocorridos na principal avenida da cidade de São Paulo, em 2010 e em 2011.
Quais serão os próximos passos? A proibição da livre circulação de informações na Internet, com a aprovação do “AI-5 Digital”, talvez. E depois?



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